Por Ana Soáres
A inauguração do SBT News, novo canal de notícias do Sistema Brasileiro de Televisão, extrapolou o caráter institucional e reacendeu um debate antigo no Brasil: a relação histórica entre grandes grupos de mídia, poder político e memória pública. A presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cerimônia, realizada na última sexta-feira, 12 de dezembro, provocou reações nas redes sociais e levou o cantor Zezé Di Camargo a criticar publicamente a família Abravanel, acusando as filhas de Silvio Santos de desrespeitarem a posição política do fundador da emissora.
O episódio, no entanto, revela menos uma ruptura e mais a continuidade de uma tradição cuidadosamente construída ao longo de décadas por Silvio Santos, um dos maiores nomes da televisão brasileira. Ao convidar Lula para a inauguração do novo canal, as herdeiras do SBT retomaram uma prática histórica do pai: manter diálogo institucional com presidentes de diferentes espectros políticos, regimes e orientações ideológicas, sempre em nome da sobrevivência, expansão e relevância do negócio televisivo.
A reação de Zezé Di Camargo e a disputa de narrativas
A crítica de Zezé Di Camargo ganhou repercussão ao vir acompanhada de um pedido público para que o SBT não exibisse mais seu especial de Natal já gravado. O cantor afirmou que o convite ao presidente Lula contrariaria os valores políticos de Silvio Santos. A declaração encontrou eco em setores polarizados da opinião pública, especialmente entre apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Ainda assim, especialistas em comunicação, historiadores da mídia e jornalistas veteranos apontam que a leitura feita pelo sertanejo ignora a complexidade do legado de Silvio Santos. Ao longo de mais de quatro décadas, o fundador do SBT construiu uma relação pragmática com o poder, marcada menos por alinhamentos ideológicos fixos e mais por uma lógica de adaptação ao contexto político vigente.
Silvio Santos e o jogo institucional do poder
Silvio Santos atravessou diferentes fases da história política brasileira. Durante a ditadura militar, manteve relações próximas com o regime, inclusive com apoio explícito a governos autoritários, em um período em que concessões de rádio e televisão estavam diretamente subordinadas à boa vontade do Executivo. Foi durante o governo de João Figueiredo que o empresário consolidou a concessão que deu origem ao SBT, a partir do espólio da extinta TV Tupi.
A partir da redemocratização, Silvio manteve o mesmo princípio de relacionamento institucional. Governos civis de diferentes orientações passaram por sua emissora, sempre recebidos com cordialidade, espaço de fala e visibilidade. O quadro A Semana do Presidente, exibido por anos e financiado com recursos públicos, é frequentemente citado como símbolo dessa relação próxima e positiva com o poder executivo, independentemente de quem ocupasse o cargo.
Em entrevista concedida em 1998, Silvio Santos definiu a si como um “office-boy de luxo do governo”, frase que sintetiza sua visão pragmática sobre o papel da televisão comercial no Brasil. Para ele, respeitar o presidente da República era uma regra institucional, não uma declaração ideológica.
Relações com presidentes de diferentes espectros
Ao longo dos anos, Silvio Santos manteve relações-públicas e privadas com praticamente todos os presidentes do período democrático. Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro tiveram espaço no SBT em diferentes formatos, contextos e intensidades.
Lula, em particular, esteve presente em momentos relevantes da trajetória da emissora. Foi entrevistado pelo canal ainda na campanha presidencial de 1989, participou de ações ligadas ao Teleton e recebeu Silvio Santos no Palácio do Planalto em 2010. O encontro ocorreu em meio à crise do Banco Panamericano, controlado pelo Grupo Silvio Santos, o que gerou especulações à época, nunca confirmadas oficialmente.
Dilma Rousseff também apareceu em produções comemorativas do SBT, como no documentário gravado para celebrar os 40 anos da emissora, no qual prestou depoimento ao lado de Lula sobre a tentativa de candidatura presidencial de Silvio em 1989.
Após o impeachment de Dilma, Silvio aproximou-se de Michel Temer, que chegou a ser recebido em seu programa dominical. Com Jair Bolsonaro, a relação ganhou contornos mais explícitos, com elogios públicos, ligações ao vivo durante o Teleton e alinhamento simbólico em campanhas institucionais do canal entre 2018 e 2020. Nesse período, o SBT também se beneficiou de mudanças na política de distribuição de verbas publicitárias federais.
A continuidade do legado pelas filhas
Com a morte de Silvio Santos no ano passado, a responsabilidade pela condução do SBT passou definitivamente às filhas, entre elas Daniela Beirute, atual presidente da emissora. Em seu discurso na inauguração do SBT News, Daniela relembrou explicitamente o gosto do pai por receber políticos e dialogar com o poder constituído, reforçando que a emissora seguirá comprometida com a pluralidade institucional.
O convite a Lula, portanto, não representa uma guinada ideológica, mas a reafirmação de uma estratégia histórica: reconhecer o chefe de Estado em exercício como parte do jogo democrático e do ambiente institucional em que a comunicação de massa opera no Brasil.
Mídia, memória e polarização
O episódio expõe, mais uma vez, como a memória de figuras públicas se torna campo de disputa simbólica em tempos de polarização extrema. Silvio Santos, frequentemente apropriado por narrativas políticas distintas, foi, acima de tudo, um empresário da comunicação que entendeu como poucos as engrenagens do poder no país.
A reação de Zezé Di Camargo, embora legítima do ponto de vista individual, revela também como expectativas pessoais e projeções ideológicas podem distorcer a leitura histórica. O legado de Silvio não foi o de um militante político, mas o de um negociador habilidoso, disposto a dialogar com qualquer governo para garantir a longevidade de seu império midiático.
O que esse episódio nos diz hoje
A inauguração do SBT News e a controvérsia que a acompanhou levantam uma questão central para o Brasil contemporâneo: é possível separar relações institucionais de alinhamentos ideológicos em um país marcado por disputas narrativas tão intensas? Ou a polarização tornou impossível qualquer gesto que não seja imediatamente lido como tomada de posição?
Ao seguir a tradição de seu fundador, o SBT parece apostar na primeira hipótese. Resta saber se, em um ambiente cada vez mais tensionado, a sociedade brasileira ainda é capaz de reconhecer a diferença entre pragmatismo institucional e adesão política. Essa distinção, talvez mais do que o episódio em si, seja o verdadeiro teste para a maturidade democrática do país.
