Instituto celebra sete anos com expansão histórica e inauguração de sede na Gávea, abrindo caminho para transformar ainda mais vidas de crianças e jovens em vulnerabilidade
Por Aretha Hercovitch Carrão
Há lugares que não se constroem apenas com tijolos. Eles nascem de urgências, dores, sonhos e da profunda necessidade de cuidar do outro. A Casa Vivarte, que será inaugurada no próximo dia 3 de dezembro, na Gávea, Zona Sul do Rio, é precisamente isso: um território de afeto e reconstrução em uma cidade que insiste em ferir e resistir ao mesmo tempo.
A nova sede do Instituto de Restauração Humana Vivarte, que completa sete anos em 2025, representa a virada de página de uma organização que escolheu enfrentar as desigualdades oferecendo criação, escuta e pertencimento aos jovens que o poder público insiste em deixar para trás. Com a chegada à Gávea, o Vivarte se prepara não apenas para ampliar seu alcance, mas para consolidar uma política de cuidado social pela via das artes, da saúde emocional e da formação cidadã.
Um país que deixa jovens para trás e um instituto que os chama pelo nome
Dados do UNICEF mostram que mais de 32% dos adolescentes brasileiros vivem em algum grau de vulnerabilidade social severa. Muitos convivem diariamente com violência doméstica, ausência de afeto, fome emocional, precarização escolar e uma cidade que se fecha para quem não teve chance de começar. Em meio a esse cenário, o Vivarte se tornou um respiro.
Atualmente, o instituto acompanha cerca de 40 adolescentes de 12 a 17 anos por meio de duas frentes principais: arteterapia e musicoterapia, esta última conduzida pelo coral da instituição, sob direção de Carlinhos de Jesus. As atividades acontecem não apenas como oficinas, mas como ancoragem emocional para jovens que carregam histórias partidas, trajetórias interrompidas e sentimentos sem nome.
Com a Casa Vivarte, o número de jovens atendidos subirá para 60 já no início de 2026, chegando a 100 até dezembro do mesmo ano. O avanço é significativo e responde a uma demanda crescente por atendimento socioemocional no Rio de Janeiro, especialmente entre adolescentes e crianças expostas a contextos de risco.
Uma casa que se expande, como quem abre os braços
A nova sede permitirá a criação de seis salas dedicadas exclusivamente à arteterapia, que passam a acolher públicos diversos. Crianças de 6 a 11 anos poderão iniciar seu processo de desenvolvimento emocional ainda cedo; jovens neurodivergentes terão acompanhamento especializado; e o grupo de 18 a 24 anos encontrará no Vivarte um espaço de transição para a vida adulta com dignidade e suporte.
“A arteterapia sempre foi o coração do Vivarte. É a partir dela que esses jovens constroem novos repertórios internos, encontram um lugar seguro para sentir e ressignificam suas histórias, muitas vezes marcadas por ausências profundas”, afirma Dominique Chor, psicóloga e presidente do instituto. Ela reforça que a nova casa “não é apenas um espaço físico maior, mas um horizonte expandido”.
Além das salas, a sede receberá uma horta orgânica que funcionará como laboratório vivo de sustentabilidade, alimentação consciente e responsabilidade coletiva. As oficinas de culinária saudável completarão esse ciclo, transformando o cuidado em gesto cotidiano e autonomia.
Novos profissionais se somam à equipe: um professor de teatro, um horticultor, um especialista em culinária sustentável, além de voluntários da saúde mental e guias para os passeios culturais já tradicionais do Vivarte. São idas a cinemas, museus, espetáculos e exposições que ampliam visão de mundo e estimulam pensamento crítico.
Uma biblioteca que nasce como farol
Entre as novidades mais simbólicas está a primeira biblioteca do instituto, que já nasce com cerca de 200 livros e deve chegar a 400 até o fim de 2026. O acervo reúne literatura juvenil, filosofia, psicologia, sociologia, artes plásticas, história, mitologia grega e títulos de medicina integrativa, todos organizados para estimular o pensamento profundo e as perguntas que não se calam.
A biblioteca faz parte de uma parceria com a Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, que também estará representada na inauguração pela secretária Danielle Barros.
Para Ivana Mourão, socióloga e vice-presidente do Vivarte, a nova fase reafirma a vocação da instituição. “Estamos construindo um lugar que acolhe e amplia horizontes. Uma casa que oferece mais do que atividades: oferece futuro. E futuro é o que esses jovens merecem.”
Solenidade com arte, juventude e propósito
A inauguração da Casa Vivarte terá apresentação especial do coral da instituição, formado pelos adolescentes e conduzido por Carlinhos de Jesus. O evento contará ainda com um leilão beneficente de telas produzidas pelos jovens nas sessões de arteterapia. Toda a renda será destinada à manutenção e expansão dos projetos.
A celebração acontece em um momento em que o Brasil enfrenta sucessivas crises sociais e políticas, que afetam de forma mais intensa populações jovens e periféricas. Instituições como o Vivarte se tornam fundamentais para garantir que a juventude não seja estatística, mas potência.
O que a Casa Vivarte nos lembra sobre o Brasil
Em um país que normalizou a negligência e que frequentemente falha na proteção de seus jovens, iniciativas como essa insistem em reescrever o destino. São lembretes de que o cuidado é ato político, e que transformar vidas exige investimento emocional, financeiro, institucional e humano.
A Casa Vivarte nasce como farol em meio ao caos, lembrando que nenhuma sociedade avança deixando para trás seus adolescentes.
A pergunta que fica é simples e urgente: quanto de futuro estamos dispostos a plantar hoje para colher um país verdadeiramente humano amanhã?
Serviço – Inauguração da Casa Vivarte e celebração dos 7 anos do Instituto
Data: 3 de dezembro de 2025
Endereço: Rua Cedro, 34, Gávea – Rio de Janeiro
Horário: 18h
Sobre o Instituto Vivarte
O Vivarte acolhe, integra e desenvolve crianças e adolescentes em vulnerabilidade por meio da arte e da psicologia, oferecendo ferramentas reais para o fortalecimento emocional e social. Com metodologia interdisciplinar e humanística, atua para estimular pensamento crítico, autonomia e construção de novos caminhos para jovens impactados por desigualdades profundas.
