OS MINI-DESFILES QUE FAZEM O RIO RESPIRAR SAMBA ANTES DO TEMPO

Rio de Janeiro, dezembro de 2025. Enquanto o país ainda se ajeita para fechar o ano, o Rio faz o que sabe fazer melhor: abre alas para o que vem aí. Na Cidade do Samba, na Gamboa, um pedaço precioso da alma carioca começa a pulsar mais alto. Entre tambores, fitas coloridas e o cheiro de asfalto quente que anuncia festa, o fim de semana chega com uma celebração que atravessa gerações e reafirma a potência cultural do Brasil.

É o pré-carnaval do Dia Nacional do Samba, uma data que não pede explicação, apenas presença. Doze escolas de samba preparam mini-desfiles que funcionam como aperitivo para fevereiro, um sussurro ritmado do que o Rio está prestes a oferecer ao mundo. E, como se não bastasse, o palco recebe dois monumentos vivos da música brasileira: Zeca Pagodinho e Martinho da Vila, nomes que dispensam apresentações e que, juntos, transformam qualquer noite em memória.

A entrada para o evento é solidária. Quem chega cede um quilo de alimento, quem vai embora leva afeto, cultura e pertencimento.

A festa se desdobra entre barracões que sabem mais sobre resistência do que muitos livros de história.

O poder social do samba: mais do que festa, identidade

Falar de samba em 2025 é falar de um país que ainda insiste em sobreviver pela arte. Dados do Observatório da Cultura mostram que, só no Rio, as escolas de samba movimentam mais de 3 bilhões de reais por ano e empregam diretamente cerca de 25 mil pessoas. É um ecossistema que vai muito além da avenida, e que se torna ainda mais relevante em tempos de cortes, ameaças a políticas culturais e tentativas de silenciamento de expressões populares.

Créditos: Eduardo Hollanda / Rio Carnaval

A Cidade do Samba é o berço onde fantasias viram sonhos palpáveis, e onde comunidades inteiras respiram a preparação para o carnaval. Um mini-desfile, por menor que pareça, carrega costureiras, veteranos de ala, adolescentes que ensaiam passos que aprenderam com as avós, percussionistas que tratam seus instrumentos como extensão do próprio corpo.

E tem o público, que chega como quem reencontra um amigo antigo.

“O samba é minha forma de estar no mundo”

O percussionista Rodrigo Malaquias, 32 anos, integrante da bateria da Portela, resume com sinceridade esse ritual anual.


“A gente passa o ano inteiro esperando esse momento. O samba é a minha forma de estar no mundo. Quando eu piso aqui dentro, eu lembro de quem fui e de quem posso ser.”

Rodrigo não está sozinho nessa afirmação emocional. Entre as escolas que participam dos mini-desfiles estão gigantes como Imperatriz, Beija-Flor, Mangueira, Grande Rio, Salgueiro, Portela e Vila Isabel. Cada uma leva um recorte da sua própria narrativa, das suas batalhas e da força de seus territórios.

Os mini-desfiles são um convite para que a cidade se reconheça, mesmo quando o país parece se perder.

Zeca, Martinho e o encontro dos tempos

A presença de Zeca Pagodinho e Martinho da Vila acende outro significado dentro da festa. São artistas que representam, de alguma forma, as colunas estruturais de uma identidade brasileira construída pela música. Zeca, com seu jeito despretensioso e popular que abraça o povo. Martinho, com sua poesia inteligente e sua capacidade quase ancestral de contar o Brasil.

No palco montado entre os barracões, eles ajudam a costurar as pontas do passado e do futuro, lembrando que o samba é movimento, mas também é memória.

Um Rio que resiste pela cultura

Não é possível falar de pré-carnaval sem falar de política cultural. O samba é uma linguagem preta, periférica e profundamente brasileira que nunca foi totalmente acolhida pelo Estado. Em muitos momentos, foi o próprio povo que protegeu o que era seu.

A entrada solidária do evento é simbólica. Traz a dimensão comunitária, o sentido coletivo de sobrevivência. É gente cuidando de gente através da cultura, um gesto que reflete um Rio que continua vivo, mesmo quando a estrutura tenta desabar.

E há algo de profundamente político no fato de essas escolas ocuparem o espaço público com sua alegria. A festa é um ato de afirmação.

Por que isso importa?

Porque o Brasil, tantas vezes atravessado por violências e ausências, encontra no samba um espelho mais honesto do que somos. E, porque, num país onde políticas públicas de cultura são constantemente ameaçadas, eventos como este lembram que a resistência também é feita de tambor, de canto, de corpo que se move em coletivo.

O pré-carnaval da Cidade do Samba não é só entretenimento. É a celebração de uma força ancestral que nunca esteve em risco real de desaparecer, porque vive nas mãos, vozes e memórias do povo.

Programa: Mini-desfiles da Cidade do Samba (28 a 30 de novembro de 2025)

Sexta-feira, 28/11, a partir das 19h

  • Acadêmicos de Niterói
  • Imperatriz Leopoldinense
  • Portela
  • Mangueira
  • Show principal da noite: Mumuzinho

Sábado, 29/11, portões abrem 17h / início 19h

  • Mocidade Independente de Padre Miguel
  • Beija-Flor de Nilópolis
  • Unidos do Viradouro
  • Unidos da Tijuca
  • Show principal da noite: Martinho da Vila

Domingo, 30/11, às 18h

  • Paraíso do Tuiuti
  • Unidos de Vila Isabel
  • Acadêmicos do Grande Rio
  • Salgueiro
  • Show principal da noite: Zeca Pagodinho

Um convite final

Serviço — Mini-desfiles na Cidade do Samba
Datas: sexta-feira, sábado e domingo, em comemoração ao Dia Nacional do Samba.
Local: Cidade do Samba, Gamboa, Rio de Janeiro.
Atrações: mini-desfiles de 12 escolas de samba e shows de Zeca Pagodinho e Martinho da Vila.
Entrada: solidária, mediante doação de 1 kg de alimento não perecível.
Horário: programação ao longo do fim de semana (confirmar grade no local).

Se você estiver no Rio, vá.
Se não estiver, acompanhe, compartilhe, apoie.
A cultura só se mantém quando a sociedade a abraça.

E fica a pergunta que deve nos acompanhar depois que as luzes da Gamboa se apagarem:
Que país queremos construir se não começarmos por celebrar e proteger aquilo que nos constitui como povo?

O samba responde. Basta ouvir.

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