Como sonhar com o amanhã quando o presente já nasceu cansado?

Por Silver D’Madriaga Marraz

Há uma geração crescendo sob o peso do desencanto. Jovens que, em vez de acreditarem no futuro, apenas tentam sobreviver ao presente. Não é apenas pessimismo juvenil — é uma sensação difusa de esgotamento, um mal-estar que mistura ansiedade, cansaço e descrença. O século XXI, que prometia liberdade e oportunidades infinitas, revelou-se um tempo de instabilidade, medo e solidão digital.

Essa geração foi educada para acreditar no mérito, mas vive num sistema que distribui oportunidades de modo desigual. Aprendeu que o estudo é o caminho, mas descobre, cedo demais, que diplomas não garantem futuro. Vê o planeta colapsar, a política desmoronar, o custo de vida subir e os laços afetivos se esgarçarem. Tudo parece em crise — menos a cobrança por sucesso. É a geração que carrega a exaustão como herança e a frustração como rotina.

A desesperança juvenil é também uma resposta ao excesso de estímulos. Nas redes, todos parecem felizes, produtivos e realizados, enquanto a vida real se mostra cada vez mais árida. A comparação constante gera um sentimento de inadequação coletiva. É como se o fracasso tivesse se tornado a norma silenciosa — e o silêncio, um grito contido. O resultado é uma juventude hiperconectada, mas profundamente sozinha.

Os discursos institucionais insistem em rotular esses jovens como “apatéticos” ou “sem propósito”. Mas o que parece desinteresse, muitas vezes, é autoproteção. Numa sociedade em que tudo é precário — o trabalho, o afeto, a política, o planeta — a esperança se transforma em risco emocional. A desistência, paradoxalmente, torna-se um modo de resistência. Não acreditar pode ser, em certos contextos, uma forma de não se deixar enganar.

O mercado, entretanto, tenta capturar até esse desencanto. A indústria do bem-estar promete soluções rápidas para males profundos: aplicativos de meditação, palestras motivacionais, gurus da produtividade. Mas o problema não é falta de foco — é falta de horizonte. A ansiedade juvenil não é uma falha individual, e sim o sintoma social de um mundo que cobra sentido, mas oferece vazio.

Há, porém, lampejos de potência nesse aparente desespero. A mesma juventude que desconfia das promessas de estabilidade é a que reinventa formas de existir. Cria coletivos, movimentos, economias alternativas, novas linguagens artísticas e políticas afetivas. Desacreditar no sistema não é o mesmo que desistir da vida; é buscar, fora das estruturas tradicionais, modos mais autênticos de estar no mundo.

Talvez a esperança dessa geração não esteja no futuro — mas no agora. Nos vínculos que cria, nas causas que defende, na empatia que constrói em meio ao caos. O desafio não é convencer os jovens a acreditarem no amanhã, mas fazer com que o presente seja digno de atitudes, do sair do comodismo, do romper com a veneração do “não estou a fim de nada”, porque o verdadeiro fracasso de uma sociedade não é a falta de sonhos — é o momento em que ela deixa de ser capaz de inspirá-los.

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