Reprodução/Instagram @leonardo

Em um país como o Brasil, onde o latifúndio e a desigualdade social caminham lado a lado há séculos, histórias de trabalho análogo à escravidão parecem sempre trazer um passado que, ao invés de ficar para trás, insiste em retornar. Dessa vez, a surpresa veio com um nome familiar ao público: Emival Eterno da Costa, o cantor Leonardo, agora incluído na ‘lista suja’ do trabalho escravo. O que nos faz questionar: como é possível que uma propriedade tão grandiosa como a Fazenda Talismã, avaliada em R$ 60 milhões, abrigue práticas tão medievais?

A fazenda, que leva o nome de um dos maiores sucessos da dupla Leandro & Leonardo, foi o foco de uma fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). O resultado foi chocante. Seis trabalhadores foram encontrados em condições análogas à escravidão, em uma realidade que contrasta drasticamente com o cenário luxuoso que a nora do cantor, Virgínia Fonseca, exibe em tours pelo local nas redes sociais.

Enquanto a mansão e os lagos deslumbram seus seguidores, os relatos dos fiscais revelam outra realidade. Dormitórios com janelas quebradas, coberturas precárias e banheiros estragados, sem água, descrevem as condições em que esses trabalhadores foram obrigados a viver. Situações como essas são inadmissíveis em pleno século XXI, especialmente em um país que possui leis trabalhistas robustas e uma história marcada por lutas contra a exploração e a miséria.

O advogado de Leonardo, Pedro Vaz, afirma que a parte da fazenda onde as irregularidades ocorreram está arrendada para outra pessoa desde 2022. No entanto, o que vale é o nome que consta na matrícula do imóvel, e esse nome é o de Leonardo. A defesa alegou que, mesmo assim, as indenizações foram pagas e os problemas, resolvidos. Porém, será que isso é suficiente para apagar o impacto dessas revelações?

É importante destacar que o Brasil, apesar dos avanços, ainda carrega uma herança escravocrata muito presente em suas zonas rurais. Dados recentes mostram que, entre os 176 empregadores incluídos na ‘lista suja’, a criação de bovinos – atividade principal da Fazenda Talismã – está entre as áreas com maior número de infrações. E o problema não é isolado. A cada nova atualização da lista, mais e mais fazendeiros são incluídos, muitos deles figuras públicas que, como Leonardo, parecem estar à margem das obrigações morais que o poder econômico deveria impor.

O caso do cantor reflete um aspecto inquietante da sociedade brasileira: a disparidade de tratamento entre aqueles que possuem riqueza e os que lutam diariamente por sua sobrevivência. As imagens de trabalhadores em condições sub-humanas nos remetem a um Brasil que insiste em explorar a mão de obra de sua gente mais vulnerável. Não importa se a fazenda estava arrendada; a responsabilidade social e ética deveria ser inegociável para figuras públicas com tanto alcance e influência.

É claro que a cultura sertaneja, representada na maioria por artistas como Leonardo, está profundamente arraigada nas raízes do Brasil rural. Mas, em tempos de debate sobre justiça social e responsabilidade corporativa, é impossível olhar para esse caso sem uma dose de crítica feroz. Leonardo, com sua trajetória de sucesso e carisma incontestável, também se torna símbolo de uma elite que muitas vezes se omite ou subestima os impactos de suas decisões.

O que nos resta, como sociedade, é continuar vigilantes. Embora as indenizações tenham sido pagas e as irregularidades “sanadas”, não podemos deixar que esse tipo de prática se normalize. O Brasil precisa, mais do que nunca, de responsabilidade social e de um compromisso real com a dignidade humana. E isso inclui nossos ídolos. Porque, no final das contas, o trabalho dignifica, mas não à custa da liberdade de quem o exerce.

Fazenda Talismã

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