Autor: Silver Marraz

Quando a miséria não é um acidente, ela se torna uma estratégia de poder. Por Silver D’Madriaga Marraz A pobreza, no imaginário oficial, costuma ser tratada como falha individual, acaso histórico ou consequência natural de um sistema competitivo. Mas essa narrativa confortável, amplamente reproduzida, serve menos para explicar a realidade e mais para justificar a sua continuidade. A verdade mais incômoda — aquela que governos, elites econômicas e aparelhos ideológicos preferem evitar — é que a pobreza não apenas é produzida, como também é mantida e administrada. A pobreza, em grande medida, funciona como um projeto político. Há um poder…

Leia Mais

A maior prisão do nosso tempo é acreditar que precisamos ser extraordinários para merecer existir. Por Silver D’Madriaga Marraz Vivemos numa época em que a simples ideia de ser “comum” parece um fracasso. As pessoas acordam todos os dias sentindo que precisam ser notáveis, brilhantes, marcantes — como se a existência tivesse virado um concurso permanente. E, silenciosamente, cresce dentro de nós um medo tão peculiar quanto devastador: o medo de não ser extraordinário. Esse medo não nasce espontaneamente. Ele é cultivado. Alimentado por métricas de curtidas, por gurus que vendem excelência, por algoritmos que celebram apenas extremos. Somos ensinados…

Leia Mais

Quando a fé vira produto e o sagrado se transforma em narrativa de controle Por Silver D’Madriaga Marraz Há séculos, construiu-se ao redor de Jesus uma engrenagem teológica que não apenas distorce sua mensagem, mas a transforma em mecanismo de governo, disciplina e culpa. A figura de um homem que caminhava entre marginalizados e inconformados, desafiando as estruturas de poder, foi convertida em propaganda religiosa; um símbolo moldado para sustentar instituições, justificar hierarquias e criar dependências afetivas travestidas de devoção. O que a história institucionalizada chama de “sacrifício redentor” convém muito mais ao poder do que à espiritualidade. Não porque…

Leia Mais

Quando a exaustão política encontra a plateia perfeita para o ressentimento. Por Silver D’Madriaga Marraz A democracia brasileira vive um cansaço que não é apenas institucional; é emocional, ético e simbólico. Um cansaço que atravessa cidadãos, corrói a confiança e alimenta um ambiente onde o ódio encontra mais audiência do que a lucidez. Não se trata apenas de desgaste político, mas de um fenômeno social que redefine a forma como nos relacionamos com o mundo: estamos cansados, e o cansaço tornou-se terreno fértil para a manipulação. Há décadas, o país vive uma sucessão de crises que parecem se sobrepor sem…

Leia Mais

Nada controla mais um povo do que o medo que ele acredita ser seu, mas que alguém cuidadosamente ensinou a sentir. Por Silver D’madriaga Marraz O medo é uma emoção legítima. Ele protege, alerta, preserva. Mas, ao longo da história, poucas ferramentas foram tão eficazes para moldar comportamentos, silenciar sociedades e direcionar decisões quanto o uso político do medo. Ele opera no campo invisível da consciência, infiltra-se no cotidiano sem resistência e, quando naturalizado, torna-se um mecanismo de controle mais eficiente que qualquer arma ou decreto. A lógica é simples: indivíduos com medo pensam menos, questionam menos e se movem…

Leia Mais

O 20 de novembro revela um país que celebra a consciência negra com discursos prontos, mas continua adormecido diante do racismo que pratica todos os outros dias. Por Silver D’Madriaga Marraz O Dia da Consciência Negra deveria ser um marco de lucidez coletiva. No entanto, ano após ano, ele parece funcionar mais como um espelho incômodo que revela a contradição profunda do país: celebra-se a luta, mas normaliza-se a opressão; homenageiam-se os mortos, mas negligenciam-se os vivos. A data expõe, de forma quase didática, a distância entre o discurso antirracista que se repete em público e as práticas que, no…

Leia Mais

O que nos mata não é o trabalho — é a pressa de existir sem viver. Por Silver D’Madriaga Marraz Há um tipo de cansaço que não se resolve com sono, férias ou pausas estratégicas. Um cansaço que permanece, que se arrasta entre os dias como uma sombra silenciosa. Ele não nasce do esforço físico, mas do esgotamento emocional, das pressões sociais difusas, do excesso de vigilância e da insuficiência de sentido. E, diante desse desgaste que nos atravessa por dentro, a pergunta que se impõe é inevitável: estamos cansados porque trabalhamos demais — ou porque vivemos de menos? A…

Leia Mais

Quando o mundo endurece, quem não aprende a sentir vira sobrevivente Por Silver D’Madriaga Marraz Há uma sensação silenciosa, quase epidêmica, de que a ternura está desaparecendo entre nós. Não se trata de nostalgia barata nem de saudosismo moralista, mas de um fato que se revela nos pequenos gestos do cotidiano: a pressa que atravessa conversas, o cansaço que esvazia relações, o medo de parecer frágil, a ironia como defesa permanente. Tornamo-nos especialistas em sobreviver, mas amadores em acolher. E, no entanto, é a ternura — essa habilidade quase artesanal de tratar o outro com delicadeza — que sustenta a…

Leia Mais

Por que a sociedade contemporânea parece cada vez mais fascinada pelos algozes — e menos atenta às vítimas? Por Silver D’Madriaga Marraz Nos últimos anos, algo inquietante se instalou no imaginário coletivo: criminosos — reais, fictícios ou híbridos — passaram a ocupar o centro das narrativas culturais. Antes símbolos de rupturas éticas profundas, eles agora surgem envoltos em camadas dramáticas, trilhas sonoras envolventes, atuações brilhantes e discursos que despertam curiosidade, excitação e, perigosamente, admiração. O algoz virou protagonista; a violência, espetáculo; e o crime, produto consumível. Não se trata de negar a complexidade humana nem de reduzir a arte ao…

Leia Mais

Quando o corpo desaba, é porque a alma já implorava por silêncio muito antes — o cansaço é a última oração que ninguém quis ouvir. Por Silver D’Madriaga Marraz Há um ponto em que a exaustão deixa de ser mero desgaste físico e se transforma numa revelação incômoda. O cansaço profundo — aquele que nenhuma noite de sono recompõe, que não se dissolve em feriados improvisados nem se intimida com mais uma xícara de café — é o encontro forçado entre corpo e consciência. É o instante em que as duas instâncias, normalmente separadas pela pressa, se alinham para dizer:…

Leia Mais