Livros empilhados, 2025/Fonte: Pixabay
A máxima “bandido bom é bandido morto” representa uma das mais profundas falhas do pensamento social contemporâneo, especialmente quando analisada à luz dos dados sobre violência policial e da composição racial da população carcerária. Esta filosofia punitiva simplista não apenas falha em seus objetivos declarados de redução da criminalidade, como também perpétua ciclos de violência institucional direcionados desproporcionalmente contra populações negras e marginalizadas. Ao contrário, a penalização do indivíduo isenta as organizações criminosas fortes e organizadas que estão por trás de um cenário de crime muito mais complexo que a maioria das pessoas imagina. A Secretaria Nacional de Políticas Penais (SENAPPEN) realiza desde 2023 o Levantamento de Informações Penitenciárias. Em 2024, a população carcerária em celas físicas no Brasil é de 663 mil pessoas, a grande maioria composta por homens, segundo dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais, órgão do Ministério da Justiça. Os homens presos são mais de 634 mil, cerca de 96% dos presos. As mulheres são os outros 4%, mais de 28 mil detentas. Cerca de 51% dos delitos que levam ao encarceramento no Brasil são crimes não violentos.
Por Que a Reabilitação Social é a Melhor Solução para a População Carcerária
A questão da população carcerária representa um dos maiores desafios sociais contemporâneos. Em um cenário onde os índices de reincidência criminal permanecem elevados em diversos países, faz-se necessário repensar o modelo tradicional punitivo. A reabilitação social emerge não apenas como uma alternativa humanitária, mas como a estratégia mais eficaz para lidar com esse problema complexo.
Estatísticas em diversos países, incluindo Brasil e Estados Unidos, revelam um padrão indiscutível: pessoas negras constituem parcela desproporcional da população carcerária em relação à sua representação demográfica.
SISDEPEN, 2025
No Brasil, cerca de 48% da população carcerária é composta por pardos e cerca de 15,6% são preto, enquanto brancos compõem 28%. Amarelos são menos de 1% e indígenas são 0,1%. Para o restante — cerca de 44 mil pessoas —, o sistema não tem informações sobre a raça. Somados, pretos e pardos respondem por 63% das pessoas encarceradas, enquanto compõem 55,5% da população.
A abordagem do “bandido bom é bandido morto” ignora deliberadamente que a definição de quem é considerado “bandido” passa por filtros raciais e socioeconômicos. O mesmo comportamento que em jovens brancos de classe média é interpretado como “rebeldia juvenil”, frequentemente rotula jovens negros periféricos como “elementos perigosos” ou “potenciais criminosos”. Cerca de 44% dos presos não completaram o ensino fundamental e outros 6% sequer chegaram a ter qualquer nível de educação formal. Somente 18% dos presos hoje têm acesso à educação e somente 23,9% dos presos têm acesso ao trabalho, de acordo com dados do Ministério da Justiça.
Em 2020, o CNJ assinou uma cooperação com o Ministério Público do Trabalho e com a Confederação Nacional dos Municípios para dar início ao plano de geração de trabalho para pessoas privadas de liberdade e egressas do sistema prisional. Desde então, a porcentagem de presos que trabalham subiu de 13% para 23,9%.
Violência Policial como Política de Estado
A letalidade policial em comunidades predominantemente negras e periféricas demonstra que o lema não é apenas retórica, mas prática institucionalizada. Operações policiais em áreas vulneráveis frequentemente resultam em mortes que seriam inaceitáveis em bairros privilegiados, demonstrando padrão duplo na valoração da vida humana.
Dados alarmantes sobre execuções extrajudiciais, “atos de resistência” e mortes em abordagens policiais evidenciam que o Estado, através de suas forças de segurança, frequentemente adota a postura de executor sumário em determinados territórios. Esta prática não apenas viola princípios constitucionais fundamentais como o devido processo legal e a presunção de inocência, mas também desumaniza parcelas inteiras da população.
De acordo com dados do Observatório Nacional dos Direitos Humanos (ObservaDH), a cada sete mortes violentas no Brasil, uma foi ocasionada por intervenção policial em 2023. Cerca de 17 pessoas foram mortas por dia em ações de agentes de segurança pública, sendo que oito em cada dez vítimas eram negras, e ao menos sete em cada dez eram adolescentes ou jovens. A cada dez mortes por ações policiais em 2022, cerca de oito eram vítimas negras, e ao menos sete eram adolescentes ou jovens entre 12 e 29 anos. A maioria das mortes em intervenções policiais aconteceram com agentes em serviço (93%), e quase todas utilizando arma de fogo (98,5%). Do total, 63,6% das mortes aconteceram em vias públicas e 19,5% das vítimas foram mortas dentro da casa. Em relação aos tipos de violência e meios de agressão, 85,5% das notificações foram violência física; 20,8% violência psicológica; 11,9% intervenção legal; e 5,3% tortura. Quanto aos meios de agressão, foram utilizados a força corporal e/ou espancamento em 66% dos casos; arma de fogo em 21,5%; ameaça em 15,4%; objeto contundente em 8,8%; e enforcamento em 5,1%.
Falha como Política de Segurança Pública
O discurso do “bandido bom é bandido morto” desvia atenção e recursos de estratégias comprovadamente eficazes na redução da criminalidade: investimento em educação, oportunidades econômicas, prevenção da violência doméstica e tratamento de dependência química. Perpetua-se assim um modelo falido que, sob o pretexto de combater o crime, mantém intactas as estruturas que o produzem.
Em 03 de maio de 2025, eu fiz um post sobre estar horrorizada com escutar a música que os brigadianos (policiais) estavam cantando em seu treinamento enquanto estava na farmácia. A música fez apologia à violência policial e colocar bandidos no caixão.
Post no Threads, 2025/Arquivo pessoal
Recebi como resposta vários comentários concordando com a violência. Os comentários variavam entre pessoas dizendo que bandidos devem estar no caixão mesmo, que se eu gostava tanto de bandidos deveria levar pra minha casa/adotar, comentários insultando minha aparência, peso, idade e sexualidade e até um comentário dizendo ser uma pena que eu mesma não estivesse em um caixão. Para meu alívio, também recebi comentários que concordavam comigo e que demonstravam seu próprio horror com os comentários violentos do post.

