A aprovação automática não salva alunos — apenas livra o Estado da responsabilidade.

Por Silver D’Madriaga Marraz

Há algo profundamente errado quando um governo decide tratar o fracasso educacional não como um problema a ser enfrentado, mas como um incômodo a ser empurrado para debaixo do tapete. A decisão do governo do Rio de Janeiro de permitir que alunos do Ensino Médio avancem de série mesmo reprovados em até seis disciplinas escancara uma lógica perigosa: a de que os números importam mais do que as pessoas, e os índices mais do que o aprendizado real.

A medida é apresentada como solução para a evasão escolar. Mas basta olhar com atenção para perceber que não se trata de uma política educacional séria, e sim de uma estratégia administrativa para maquiar estatísticas. O problema da evasão não nasce da reprovação em si, mas da precariedade estrutural das escolas, da ausência de políticas de permanência, da fome, da violência, da necessidade de trabalhar cedo e da falta de perspectiva que muitos jovens enfrentam diariamente. Permitir que o aluno passe sem aprender não resolve nada disso. Apenas adia o problema e o empurra para a vida adulta.

O que se chama de “recuperação paralela” soa bonito no papel, mas na prática esbarra em uma realidade já conhecida: escolas sem estrutura, professores sobrecarregados, turmas lotadas e ausência de acompanhamento individual. Não há milagre pedagógico possível quando o sistema está exausto. O que se cria, então, é uma ficção: o estudante avança no currículo, mas não avança no conhecimento. Recebe um certificado, mas não recebe formação.

O mais grave é o recado simbólico dessa política. Ela diz ao aluno que aprender não é tão importante assim. Diz ao professor que seu trabalho pode ser reduzido a cumprir metas numéricas. E diz à sociedade que educação é apenas um obstáculo burocrático a ser superado, não um direito fundamental nem um investimento estratégico no futuro do país.

O Sindicato dos Profissionais de Educação foi preciso ao apontar o que muitos já sentem no chão da escola: trata-se de uma aprovação automática disfarçada. Quando se permite que alguém seja aprovado mesmo falhando em metade das disciplinas, o critério deixa de ser pedagógico e passa a ser político. A educação deixa de ser um processo de construção de saber e passa a ser uma engrenagem para inflar indicadores como o IDEB, ainda que isso custe a formação intelectual e crítica de toda uma geração.

Há também um silêncio ensurdecedor do governo sobre o essencial. Não se fala em valorização docente real, em salários dignos, em redução de carga horária excessiva, em apoio psicológico aos estudantes, em infraestrutura, em bibliotecas, laboratórios ou acesso pleno à tecnologia. Fala-se apenas em fluxo, em números, em estatísticas. Como se alunos fossem peças de uma linha de montagem e não sujeitos em formação.

Essa política não é neutra. Ela afeta principalmente os estudantes mais pobres, aqueles que dependem exclusivamente da escola pública para acessar conhecimento e oportunidades. Enquanto escolas privadas seguem exigindo desempenho, conteúdo e disciplina, a escola pública é empurrada para um modelo de facilitação que não emancipa — apenas mantém a desigualdade intacta. O discurso de “não reprovar para não excluir” se transforma, na prática, em uma exclusão mais sofisticada: o aluno permanece no sistema, mas sai dele sem ferramentas reais para disputar o mundo.

O governador, ao assinar essa medida, escolhe o caminho mais curto e mais perigoso. Em vez de enfrentar o problema da educação com coragem, investimento e planejamento de longo prazo, opta pela solução imediatista que rende manchetes positivas e relatórios menos constrangedores. Mas a conta não desaparece. Ela será paga depois, quando esses jovens chegarem ao mercado de trabalho despreparados, quando a universidade precisar lidar com lacunas básicas, quando a sociedade sentir os efeitos de uma formação esvaziada.

Educação não é favor, não é concessão, não é maquiagem estatística. Educação é processo, tempo, conflito, exigência e cuidado. Aprovar sem garantir aprendizagem não é inclusão — é abandono institucionalizado. É dizer ao jovem: “siga em frente”, sem lhe dar chão.

Se queremos realmente combater a evasão, precisamos de políticas que façam o aluno querer permanecer na escola porque ela faz sentido, porque acolhe, porque ensina, porque transforma. Tudo o que foge disso é apenas gestão do fracasso com outro nome.

E talvez o maior absurdo dessa decisão seja exatamente este: chamar de avanço aquilo que, no fundo, é recuo. Recuo pedagógico, recuo ético e recuo político. Porque um governo que trata a educação assim não está preparando o futuro — está apenas adiando o colapso.

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