Não é absurdo quando vemos a justiça virar moeda de troca; o absurdo é aceitarmos isso como normal.
Vivemos um tempo em que a política deveria estar com os pés fincados no chão da vida real. Um tempo em que o debate público precisaria girar em torno do que dói todos os dias na população: hospitais superlotados, escolas precarizadas, famílias sem moradia digna, trabalhadores exaustos tentando sobreviver. Mas o que se vê, repetidamente, é um descolamento quase cínico entre o que o povo vive e o que ocupa a agenda do poder.
Enquanto milhões de brasileiros acordam cedo para enfrentar filas no SUS, improvisar a educação dos filhos e escolher entre pagar contas ou comer melhor, o centro do debate político muitas vezes se concentra em disputas técnicas, projetos que circulam entre gabinetes e discussões que raramente atravessam a porta da vida comum. Parece outro país, outra realidade, outro planeta.
Nas últimas semanas, o chamado PL da Dosimetria voltou ao centro das articulações no Senado. Trata-se de um projeto que discute como penas podem ser calculadas ou ajustadas para pessoas condenadas, inclusive em casos ligados aos atos antidemocráticos de janeiro de 2023. Alguns senadores afirmam que o texto tem falhas graves e defendem sua rejeição. O debate jurídico existe, é legítimo, mas ele revela algo maior e mais preocupante: a obsessão do poder com seus próprios códigos enquanto o básico segue sendo tratado como secundário.
É aqui que precisamos parar e lembrar do óbvio, que anda perigosamente esquecido. Política não é um jogo de xadrez para poucos iniciados. Política deveria ser, antes de tudo, a arte de cuidar da vida em comum. É sobre proteger quem está mais vulnerável, garantir direitos mínimos, reduzir sofrimentos evitáveis. Quando a política se transforma em um espaço onde o tecnicismo vira escudo moral, algo muito grave está acontecendo.
O problema não é discutir leis. O problema é quando essas discussões ocupam quase todo o tempo, a energia e a urgência do Parlamento, enquanto temas como saúde, educação e moradia continuam sendo empurrados para depois, como se fossem eternamente adiáveis. O resultado disso é cruel: hospitais continuam lotados, escolas continuam sem estrutura, famílias continuam vivendo à margem, e o discurso político segue elegante, distante e ineficaz.
A pergunta que surge não é apenas jurídica, é profundamente ética. Por que aquilo que mantém pessoas vivas, com dignidade, segue sendo tratado como menos urgente? Por que projetos que impactam diretamente a sobrevivência da população não mobilizam a mesma pressa, o mesmo empenho, o mesmo barulho? Quando a política passa a cuidar mais da forma da lei do que da vida das pessoas, ela perde o rumo.

Imagem: Geraldo Magela/Agência Senado
Essa inversão de prioridades tem consequências reais. Cada debate estéril que ocupa o centro do poder é tempo roubado de políticas públicas que poderiam salvar vidas. Cada negociação feita pensando em interesses internos é uma oportunidade perdida de enfrentar desigualdades históricas. E cada cidadão que se acostuma com isso, que aceita esse absurdo como normal, acaba participando, ainda que sem querer, da manutenção desse sistema.
Essa distância entre o Congresso e as ruas gera um sentimento perigoso: o de que a política não nos pertence. De que tudo acontece longe demais para ser questionado. Mas essa sensação de impotência também é uma armadilha. Ela interessa a quem se beneficia da desmobilização popular.
Por isso, a mudança começa quando a população se recusa a naturalizar esse desvio de prioridades. Quando entende que cobrar não é exagero, é direito. Quando percebe que acompanhar, questionar, pressionar e votar com consciência não são gestos pequenos, mas atos de sobrevivência coletiva. Política não começa no plenário; começa quando o cidadão decide não se calar.
A política que transforma vidas não nasce de cálculos frios nem de disputas internas de poder. Ela nasce quando a dignidade humana vira critério central. Quando nenhuma criança fora da escola, nenhum doente sem atendimento e nenhuma família sem teto é vista como dano colateral aceitável.
Se o poder perdeu o norte, cabe à sociedade apontar novamente o caminho. Não com ódio, mas com lucidez. Não com resignação, mas com responsabilidade. Recusar o absurdo é um gesto político. Exigir prioridades humanas é um ato de coragem. E lembrar diariamente que vidas valem mais do que interesses é o primeiro passo para que a política volte a servir ao povo — e não o povo servir aos políticos.

