Quando até o pão é tratado como ameaça, é porque a humanidade assumiu claramente a sua postura de ser desprezível

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
As palavras de Manuel bandeira nos mostra que há momentos em que a realidade política ultrapassa o limite do absurdo e se torna uma espécie de espelho distorcido da nossa própria desumanidade. O episódio recente envolvendo a vereadora Talita Galhardo, que pediu publicamente para que moradores do Rio de Janeiro deixem de distribuir quentinhas às pessoas em situação de rua durante o Natal, é um desses momentos. Não porque seja apenas uma fala infeliz, mas porque revela um modo de pensar que se naturalizou em parte da política brasileira: a ideia de que a pobreza é um incômodo urbano, e não uma urgência humana; de que o sofrimento alheio é problema do Estado apenas quando convém; e de que ajudar virou ameaça à ordem.
A parlamentar afirmou que doar comida “estimula a permanência nas calçadas” e “aumenta a criminalidade”. É uma lógica perversa: transformar solidariedade em combustível de violência, como se matar a fome de alguém fosse uma espécie de incentivo ao crime. O argumento soa ilógico porque é ilógico — mas, mais do que isso, ele desumaniza. Se a pessoa em situação de rua come, está “sendo estimulada”. Se passa fome, estaria “sendo corrigida”. A fome como ferramenta de disciplina — isso não atinge apenas a crueldade política, atinge também o imaginário social que naturaliza o sofrimento como parte da paisagem da cidade.
O mais grave é que a fala escancara uma visão higienista profundamente enraizada no poder público: a ideia de que o problema das ruas é a presença das pessoas que nelas vivem, e não a ausência de políticas adequadas de moradia, renda, saúde mental, combate às drogas, acolhimento digno e proteção social. A vereadora afirma que existem vagas nos abrigos e que muitos recusam porque não aceitam regras — como se as regras fossem o grande problema, e não o fato de muitos abrigos serem insalubres, superlotados, inseguros, traumáticos e, muitas vezes, incompatíveis com a realidade de quem vive à margem.
Fala-se em vagas, mas não se fala em respeito. Fala-se em acolhimento, mas não se fala em dignidade. Fala-se em ordem pública, mas se silencia sobre o que as ruas realmente revelam: uma política social falida e um modelo de cuidado reduzido a estatística.
É muito fácil pedir que as pessoas parem de dar comida quando quem pede nunca sentiu o que é fome. Fome real. Fome que corrói o corpo e desfigura a alma. Fome que torna a rua não uma escolha, mas uma consequência. Fome não é argumento político — é emergência humanitária.
A fala também ignora um fato básico, quase óbvio: ninguém vive na rua porque recebe uma quentinha. A rua não é confortável, segura, acolhedora ou cheia de privilégios. A rua é o último degrau da exclusão, o fim da linha onde quase ninguém olha, quase ninguém escuta e quase ninguém estende a mão. A rua é violência constante, frio, vulnerabilidade, perda de identidade e medo diário. Mas, segundo alguns discursos políticos, basta tirar o alimento que o problema se resolve — como se a pobreza fosse removível com a mesma facilidade com que se limpa uma calçada.
Esse tipo de narrativa revela uma política que se preocupa mais com a estética das ruas do que com as pessoas que nelas sofrem. Uma política que prefere criminalizar quem ajuda do que assumir o fracasso de quem deveria proteger. Uma política que trata o pobre como sombra — algo que só existe quando incomoda o olhar dos privilegiados.
Em meio a esse cenário, vale dizer: solidariedade não é o problema. A ausência de políticas eficazes, sim. A falta de moradia social, sim. O sucateamento da assistência pública, sim. A criminalização da pobreza, sim. A ideia de que ajudar alguém é um ato de rebeldia contra a ordem estabelecida, sim.
E aqui entra um ponto essencial: a dimensão filosófica e humana do nosso papel na sociedade. Cada vez que uma autoridade diz que alimentar alguém “aumenta a criminalidade”, ela não está apenas atacando a ação — está tentando remodelar a consciência coletiva, convencer as pessoas de que a compaixão é imprudente, de que o cuidado é perigoso, de que a empatia é contra o Estado. E nós precisamos resistir a isso. Política não é apenas gestão: é também narrativa, símbolo e direcionamento moral.
Se começarmos a aceitar que ajudar é errado, estaremos aceitando que o abandono é virtude. Se começarmos a acreditar que solidariedade atrapalha, estamos normalizando um mundo onde cada um cuida de si — e quem não consegue sobreviver, simplesmente desaparece. É isso que está em jogo: o tipo de sociedade que estamos dispostos a sustentar.
O mais triste é que, em situações assim, a autoajuda necessária não é para quem está na rua, mas para quem perdeu a capacidade de se sensibilizar. Precisamos recuperar a humanidade que nos foi arrancada pelo discurso da eficiência, pela lógica da segurança, pelo medo de conviver com o diferente. Precisamos reaprender a olhar para o outro — para o outro real, vivo, vulnerável — e não para a imagem distorcida que a política quer que a gente enxergue.
Porque, no fim, o que está em disputa não é apenas a quentinha — é a nossa capacidade de reconhecer que ninguém merece morrer de fome enquanto há comida sobrando. É a lembrança de que solidariedade é um ato político, mas também profundamente humano. É a certeza de que, quando a política tenta nos convencer de que ajudar o outro é o problema, talvez o verdadeiro problema seja justamente quem está no poder.
Se existe algo que precisamos defender, com força e lucidez, é isto: ajudar não é crime. Amar não é ameaça. Cuidar jamais será errado. E se algum dia nos disserem o contrário, que seja exatamente nesse dia que não deixemos de oferecer a próxima quentinha.
