Que espécie de mundo permitimos construir quando levar um corpo à delegacia com as próprias mãos e ainda ser liberado é chamado de “justiça”?
Por Silver D’Madriaga Marraz
Há acontecimentos que parecem tão absurdos que, por alguns segundos, a mente tenta recusar a realidade. A notícia de que um motorista matou uma mulher trans, carregou o corpo até a delegacia e ainda assim saiu pela porta da frente como se tivesse apenas prestado um favor ao Estado é um desses episódios que revelam não apenas uma tragédia individual, mas a falência de algo muito maior: a falência moral de uma sociedade inteira. Quando um agressor confessa o crime e, mesmo assim, é liberado, não estamos diante de um erro isolado; estamos diante de um sistema de valores que aprendeu a hierarquizar vidas. A vida de algumas pessoas vale menos, pesa menos, sensibiliza menos. E é exatamente isso que torna essa situação insuportável: ela nos obriga a reconhecer que o problema não está apenas nas instituições, mas no tecido cultural que as sustenta.
O que aconteceu não é “só” violência; é também uma mensagem social. Uma mensagem que diz: “Alguns corpos não geram comoção. Algumas existências não mobilizam cuidado. Algumas mortes cabem em justificativas frágeis.” É aqui que o absurdo se transforma em alerta. Quando a impunidade se torna norma, a violência aprende. Aprende que pode agir sem consequências. Aprende que basta apresentar uma narrativa conveniente para ser tratada com indulgência. Aprende que algumas vítimas não geram urgência institucional. Esse aprendizado perpetua o ciclo: hoje é uma mulher trans; amanhã é qualquer pessoa cuja vida não se encaixe no estereótipo do cidadão digno de proteção.
Mas há algo mais difícil de admitir: esse tipo de tragédia nos afeta emocionalmente, mesmo quando não conhecemos a vítima. Afeta porque percebemos que vivemos num mundo onde a injustiça não é exceção, mas possibilidade cotidiana. Afeta porque sabemos que, se o sistema permite tamanho descaso com a vida de uma pessoa, ele também pode falhar conosco, com quem amamos, com qualquer um. O impacto psicológico de constatar que a violência pode ser relativizada adoece a sociedade inteira. A sensação de insegurança, raiva ou impotência não é exagero; é um sinal de que a nossa consciência ainda funciona.
A parte filosófica entra justamente aqui: como viver em um mundo onde a vida humana se tornou moeda flutuante, valendo mais para uns e menos para outros? Que tipo de humanidade estamos construindo quando aceitarmos explicações frágeis para mortes violentas? Quando normalizamos o absurdo, o absurdo se torna política. E tudo o que se torna política ganha o poder de moldar comportamentos, influenciar atos e anestesiar consciências. Isso cria um estado social de indiferença que mata duas vezes: mata a vítima e mata a capacidade coletiva de indignação.
Mas, ao contrário do que parece, este não é um texto de desespero. É um convite para recuperar um senso de responsabilidade emocional e política. Autoajuda também é isso: perceber que, quando o mundo nos fere, nós podemos escolher não nos tornar parte da ferida. Podemos reivindicar humanidade onde ela está sendo retirada. Podemos aprender a denunciar, a apoiar, a exigir. Isso não resolve o problema imediatamente, mas transforma a passividade em ação, e ação é o primeiro passo para qualquer mudança concreta.
Então, sim: é revoltante que alguém mate, transporte o corpo e saia livre. É revoltante porque mostra que a máquina institucional ainda falha onde deveria ser mais firme. Mas você, que lê este texto, não precisa normalizar isso. A indignação é saudável. A empatia é necessária. A consciência é ferramenta. A mudança de postura — mesmo individual — é política. Ações pequenas, como se posicionar, compartilhar informação, cobrar autoridades, apoiar a comunidade trans, tudo isso contribui para que o absurdo não seja engolido como rotina. Você não controla o sistema inteiro, mas controla o seu próprio movimento interior. Controla o que aceita, o que rejeita, o que repete, o que questiona.
E talvez esse seja o ponto mais importante: quando a realidade parece absurda demais para ser real, não é o momento de desistir. É o momento de se lembrar que a justiça, antes de ser uma instituição, começa como um valor. E valores se constroem no indivíduo. Se você se revolta, é porque ainda acredita que a vida tem valor. Use isso. A revolta que não paralisa vira consciência, e a consciência que persiste vira ação. Um mundo menos absurdo não nasce do conforto; nasce da recusa ao silêncio. Hoje, você pode não mudar o país inteiro, mas pode impedir que o absurdo vire normalidade na sua mente. E isso já é resistência.

