Especialista explica causas, sintomas e esclarece as principais dúvidas sobre o problema, que ainda é frequentemente banalizado
Por Julia Goes, para Pàhnorama Saúde
Apesar de ser uma condição relativamente comum, a hipoglicemia, conhecida popularmente como “queda de açúcar”, ainda é tratada com descuido e desinformação — tanto por parte da população quanto, em alguns casos, até de profissionais da saúde. Entre mitos, crenças populares e diagnósticos tardios, o que está em jogo é algo muito mais sério: a energia vital do corpo humano.
“O corpo precisa da glicose como o carro precisa de combustível. Sem ela, o motor simplesmente para”, explica Ramon Marcelino, endocrinologista e pesquisador do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. “A hipoglicemia pode parecer algo simples, mas quando não é identificada e tratada corretamente, pode levar a quadros graves, como convulsões, arritmias e até perda de consciência.”
A glicose, principal fonte de energia para o organismo, deve manter-se dentro de uma faixa segura — geralmente entre 70 e 100 mg/dL em jejum. Quando os níveis caem abaixo disso, surgem os sintomas clássicos: tremores, tontura, suor frio, palpitação, fraqueza e, em casos extremos, desmaio ou coma.
Mas o que de fato causa essa queda? E por que ainda se fala tão pouco sobre o tema?
“Porque a hipoglicemia ainda é mal compreendida”, diz o especialista. “Ela pode acontecer com qualquer pessoa — com ou sem diabetes — e tem origens diversas: desde o uso inadequado de medicamentos até cirurgias bariátricas, distúrbios hormonais e até doenças genéticas raras.”
No Brasil, pesquisas desenvolvidas em parceria entre a USP e a Unicamp vêm ampliando a compreensão sobre as diferentes causas e manifestações da hipoglicemia em adultos, revelando que muitos casos são subdiagnosticados.
Entenda o que é mito e o que é verdade sobre a hipoglicemia
1. Sentir tremores, tontura ou fraqueza sempre significa baixa de açúcar no sangue.
MITO. Esses sintomas podem ocorrer também por pressão baixa, desidratação, ansiedade ou até uso de certos medicamentos. Só exames podem confirmar a hipoglicemia.
2. Qualquer doce serve para tratar a hipoglicemia.
MITO. O ideal é ingerir carboidratos de absorção rápida, como suco de fruta ou refrigerante comum. “A regra do 15-15 é simples e eficaz: tomar 200 mL de suco ou refrigerante, esperar 15 minutos e medir novamente a glicemia”, ensina Marcelino. Comer doces em excesso pode causar o efeito rebote — uma alta súbita e nova queda logo em seguida.
3. Medir a glicemia na ponta do dedo já confirma o diagnóstico.
MITO. O teste rápido é útil, mas o diagnóstico preciso exige exame de sangue venoso, especialmente quando há sintomas como irritabilidade, suor, ansiedade e dificuldade de concentração.
4. A principal causa de hipoglicemia é ficar sem comer.
MITO. Embora o jejum prolongado possa provocar o quadro, no Brasil a principal causa é a hipoglicemia pós-cirurgia bariátrica, o chamado dumping tardio. “O açúcar é absorvido muito rápido e depois despenca de forma brusca”, explica o endocrinologista.
5. Medicamentos para emagrecer podem causar hipoglicemia.
VERDADE — mas é raro. As famosas “canetas emagrecedoras” (análogos de GLP-1) causam hipoglicemia em menos de 5% dos casos, geralmente quando associadas a outros remédios. Paradoxalmente, esses fármacos também têm sido estudados como tratamento para alguns tipos de hipoglicemia.
6. Hipoglicemia não traz grandes riscos.
MITO. Glicemia baixa pode ser perigosa e até fatal: aumenta o risco de acidentes, convulsões, arritmias, infarto e danos cognitivos. “É uma emergência médica quando o paciente perde a consciência”, alerta Marcelino.
7. O teste de jejum prolongado pode durar até 3 dias sem comer.
VERDADE. O procedimento é realizado em ambiente hospitalar e monitorado por especialistas. Antigamente, o teste durava até 72 horas, mas hoje costuma ser interrompido antes, assim que os níveis de glicose caem e o diagnóstico é confirmado.
8. Glicemia baixa pode ser sinal de tumor no pâncreas.
VERDADE. Tumores raros chamados insulinomas produzem insulina em excesso, provocando hipoglicemia severa, principalmente em jejum. O tratamento, nesses casos, é cirúrgico.
9. Deficiências hormonais podem causar hipoglicemia.
VERDADE. A falta de hormônios como cortisol ou hormônio do crescimento pode levar à queda da glicose. A insuficiência adrenal, por exemplo, é uma condição grave que requer diagnóstico e tratamento urgente.
10. Problemas genéticos podem causar hipoglicemia.
VERDADE. Pesquisas brasileiras revelaram que mutações no receptor de insulina podem estar por trás de quadros recorrentes de hipoglicemia. “Estamos reunindo no Hospital das Clínicas uma das maiores casuísticas nacionais sobre o tema”, destaca Marcelino.
Por que falar de hipoglicemia é falar de saúde pública
A banalização da hipoglicemia reflete um problema maior: o acesso desigual à informação e ao cuidado preventivo. Em um país onde mais de 16 milhões de brasileiros vivem com diabetes, segundo dados da Sociedade Brasileira de Diabetes (2024), compreender as oscilações de glicose e seus riscos é uma questão de educação em saúde e cidadania.
“O Brasil ainda trata o açúcar com romantismo e culpa”, analisa Marcelino. “Mas saúde metabólica é muito mais do que cortar doce. É compreender como o corpo reage, respeitar sinais e buscar ajuda médica quando necessário.”
Refletindo
Quando o corpo “pede açúcar”, ele está falando — e aprender a ouvir é um gesto de autocuidado e consciência. Hipoglicemia não é fraqueza, tampouco frescura. É um alerta do corpo pedindo equilíbrio.
Em tempos de promessas fáceis, dietas milagrosas e medicamentos que prometem o impossível, a informação segue sendo o melhor remédio.
A saúde começa quando deixamos de acreditar no que se diz e passamos a entender o que de fato acontece.
Sobre o especialista
Dr. Ramon Marcelino é endocrinologista e pesquisador do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP). Atua também no Hospital Sírio-Libanês e é referência nacional em medicina do estilo de vida e metabolismo.
Em seu perfil no Instagram, @dr.ramonmarcelino, compartilha conteúdos confiáveis sobre obesidade, diabetes e avanços no tratamento de doenças metabólicas.
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